Li há tempos a expressão “parar é morrer” e acho que, pela primeira vez, parei uns instantes, e aparentemente continuei viva 🫣, para pensar nas implicações desta frase feita.
Vivemos pressionados para não parar. Há o tudo para ontem, as 1001 expectativas nossas e dos outros, e uma avalanche de informação para “aproveitarmos” todos os instantes. Parar começa a parecer preguiça, falta de ambição ou uma pequena falha de carácter.
Mas cada vez noto mais o contrário. Parar é essencial para desligar o piloto automático, sair da rodinha do rato e criar espaço entre aquilo que acontece e a resposta que damos.
Parar pode aumentar energia e criatividade.
Pode ser um gesto de cuidado por nós, pelos outros e pela vida. A nossa.
Chamamos “tempos mortos” 🙄 aos momentos de espera. A expressão é estranha. Estaremos mortos enquanto esperamos? E estaremos mais vivos quando inclinamos automaticamente o corpo para o telemóvel? Talvez já não saibamos fazer companhia a nós próprios.
Fast food. Fast information. TLDR. Too long, didn't read.
Fast life. Cada coisa passa a ser algo a despachar para chegarmos à próxima. Mas, quando tratamos tudo como obstáculo para o momento seguinte, estamos a tratar a vida como obstáculo para uma vida seguinte. E essa vida seguinte tem o hábito irritante de nunca chegar.
Tenho treinado isto a cozinhar. Quando corto a cenoura, corto a cenoura. Quando mexo o tacho, mexo o tacho. Não é uma revelação mística sobre legumes. É uma forma muito concreta de deixar de usar cada tarefa como corredor de acesso à tarefa seguinte.
Às vezes dou por mim a inclinar-me para o telemóvel enquanto espero. Reparo, sorrio e volto ao fazer Viver: respirar, observar, ver coisas em que nunca tinha reparado e deixar-me surpreender pela beleza ou pelo humor do mundo. Nem sempre consigo. Também isso faz parte do treino.
Mas quando consigo, é mesmo lindo!
Até as pausas foram capturadas pela linguagem da eficiência. Descansamos para produzir melhor, caminhamos para ter ideias, meditamos para aumentar o foco. Estes efeitos podem existir, mas fico desconfiada quando até o descanso precisa de justificar o seu retorno. Talvez uma pausa possa ter valor sem apresentar resultados.
Parar também permite notar os finais. Terminar uma chamada antes de abrir outra janela. Sentir que uma tarefa acabou antes de saltar para a seguinte. Sem estes pequenos finais, o dia transforma-se numa atividade única e interminável. Criar intervalos devolve contorno ao tempo e ajuda-nos a reconhecer que estivemos, de facto, naquilo que fizemos.
Parar não é retirar-se da vida. É deixar de a despachar. Porque como vivemos o dia de hoje é, pouco a pouco, como vivemos a nossa vida.
Nos meus cursos chamo a esta exploração parar em movimento. Não exige retirar-se da vida. Usa precisamente as rotinas, os estímulos de stress e os tempos de espera como lugares de treino. Pequenas paragens ajudam o piloto automático a perder força sem acrescentar mais uma tarefa pesada à agenda.
Recupere um “tempo morto” hoje. Numa fila, enquanto a água aquece ou quando o computador demora, não pegue no telemóvel. Sinta os pés, olhe em redor e deixe o intervalo ser intervalo. Depois confirme: parou e, aparentemente, continuou vivo.