Parar antes de responder não é perder tempo


Uma vez fiz asneira com a Rute Brito por causa da pressa. Até temos um episódio no Podcast Casa Trabalho Casa sobre isto (episódio 118).

Li uma mensagem no WhatsApp sem verdadeira atenção, avancei, refiz trabalho, tive de corrigir e acabámos numa conversa de doidas. A urgência que pretendia poupar tempo conseguiu a proeza de criar mais trabalho e mais ruído para as duas.

Em ambientes exigentes, parar pode parecer ineficiente. A resposta rápida é confundida com competência e disponibilidade. Mas velocidade sem critério produz decisões frágeis, mensagens que escalam conflitos e trabalho que precisa de ser refeito.

Uma pausa não precisa de ser longa nem visível. Pode acontecer entre ler e responder, antes de entrar numa reunião ou quando se reconhece tensão no corpo. O objetivo é interromper por instantes a continuação automática.

A pressa nem sempre quer resolver o problema

Ao investigar o que tinha acontecido na situação com a Rute, percebi uma coisa menos cómoda: eu não estava apenas a tentar resolver. Queria despachar para não pensar mais no assunto e finalmente ficar tranquila. Chama-se a isto necessidade de fecho.

A situação não era urgente. Podia esperar. A urgência era interna e relacionada com a vontade de não querer pensar mais nisso, fechar o assunto.

Só que reagir à pressa alimentou o mesmo ciclo de agitação que eu queria terminar.

Uma sequência simples (RODA)

Já noutro artigo partilhei a técnica da RODA que teria sido muito útil nesse dia. Só que o piloto automático estava forte…

  • Respirar: não para ficar calma à força, mas para interromper o impulso.
  • Observar: reconhecer pensamentos, emoções e sensações.
  • Decidir: identificar o que é importante nesta situação (e a real urgência das urgência)
  • Avançar: responder de forma alinhada com essa decisão.

A pausa não garante uma resposta perfeita. Pode continuar a existir pressa, ansiedade, ou irritação. A diferença é que esses estados deixam de ser os únicos autores da resposta.

Quando tudo parece urgente

Pergunte de onde vem a pressão. Há um prazo real? Alguém precisa de previsibilidade? Existe confusão sobre prioridades? A resposta adequada pode ser agir depressa, definir limites ou pedir clareza. Nem toda a urgência pede a mesma velocidade.

Parar antes de responder não é retirar-se da ação. É uma parte da ação. Alguns segundos de presença podem evitar horas de correção, desgaste e conversa desnecessária.

Onde colocar a pausa

Confiar que vamos lembrar-nos de parar no auge da pressa é otimista. Ajuda associar a pausa a momentos concretos: antes de abrir o correio, depois de ler uma mensagem difícil, quando nos sentamos numa reunião ou antes de carregar em enviar. O contexto passa a funcionar como lembrete.

A pausa pode ser o tempo de sentir os dois pés e fazer uma respiração completa. Não precisa de produzir calma. Precisa apenas de interromper a fusão entre o estímulo e a resposta. Depois continuamos, talvez à mesma velocidade, mas com uma leitura um pouco mais ampla da situação, das necessidades e das consequências.

Desacelerar não significa fazer tudo devagar. Significa estar presente seja qual for a velocidade. Há situações que pedem rapidez. A pausa serve para que a velocidade seja uma escolha e não apenas a continuação de um programa automático que começou a correr.

À luz do Piloto Presente

No Piloto Presente trabalho a pausa primeiro no corpo. Antes de procurar uma frase inteligente, a atenção vai aos pés, ao contacto com a cadeira ou à expiração. A regulação começa por criar condições. A resposta vem depois.

Para experimentar

Antes de responder a uma mensagem que lhe pede resposta imediata, faça uma respiração profunda e dê especial atenção à expiração. 

Dê um nome simples ao estado presente (pressa, medo, ansiedade). 

Só depois decida se responde, espera ou pede esclarecimento. 

A pausa não escolhe por si. Devolve-lhe condições para escolher.

Se quiser ouvir o episódio em que falo sobre “a asneira com a Rute” e a minha tendência para despachar sobre outro ângulo, procure pelo episódio 118 do podcast Casa Trabalho Casa na sua app de podcasts ou ouça diretamente aqui.