Quando, numa formação, falo sobre stress, normalmente recupero conhecimento de outra vida, quando trabalhava com estruturas aeroespaciais: o stress não é a carga, mas a resposta à carga.
Na vida, a carga pode ser um prazo, um email, uma conversa difícil, uma preocupação ou a acumulação de pequenas exigências.
Mas a resposta não depende apenas daquilo que acontece. Depende também da estrutura que recebe essa carga.
No nosso caso, depende do estado do sistema nervoso, do cansaço, das experiências anteriores, das crenças, da sensação de controlo e da perceção dos recursos disponíveis naquele momento.
É por isso que duas pessoas podem responder de forma muito diferente à mesma situação. E até que a mesma pessoa pode lidar bem com uma exigência num dia e sentir-se completamente sobrecarregada noutro.
Imagine que recebe um email urgente.
Quase imediatamente, a respiração fica mais curta, os ombros contraem-se e surge um pensamento: «Tenho de resolver isto já.»
A atenção estreita-se e aparece o impulso de interromper tudo para responder.
A carga é o email. O stress é esta resposta que se forma no corpo e na mente.
Não se trata de uma falha. É o sistema nervoso a tentar preparar-nos para lidar com algo que interpreta como uma ameaça ou exigência.
O problema surge quando todas as pressões começam a ser tratadas como emergências e o piloto automático passa a decidir por nós.
O mindfulness não elimina a carga nem garante que vamos sentir calma.
Mas ajuda-nos a reconhecer mais cedo a resposta que está a surgir: a tensão no corpo, os pensamentos, as emoções e o impulso para agir.
Esse reconhecimento pode criar alguns segundos de espaço entre a pressão e a reação.
É nesse espaço que podemos escolher como responder.
No Programa Piloto Presente, ensino o acrónimo RODA para interromper o piloto automático em momentos de stress.
R | Respirar
Pare por alguns instantes. Faça duas ou três respirações mais profundas, sinta o contacto dos pés com o chão e permita-se largar alguma tensão ao expirar. O sistema nervoso agradece.
O | Observar
Observe pensamentos, emoções, impulsos e sensações no corpo sem continuar imediatamente a alimentar a história.
Pergunte:
D | Decidir
Antes de seguir o primeiro impulso, pergunte:
A resposta pode pedir clareza, firmeza, respeito, cuidado ou apenas algum tempo antes de agir.
A | Avançar
Faça a próxima coisa de forma tão alinhada quanto possível com aquilo que reconheceu como importante.
Pode significar responder, esperar, pedir esclarecimentos, negociar um prazo, colocar um limite ou procurar apoio.
Em momentos difíceis, não respondemos necessariamente de acordo com aquilo que sabemos. Tendemos a regressar aos padrões que treinámos. E a maior parte das pessoas tem treinado toda a vida irritação, impaciência, frustração, medo…
Por isso, a RODA não deve ser usada apenas quando já estamos no limite. Pode ser praticada em pequenas situações do quotidiano: antes de responder a uma mensagem, durante uma espera ou quando reconhecemos os primeiros sinais de irritação.
Com a repetição, a pausa torna-se mais acessível.
Nem toda a pressão se resolve internamente. Por vezes, a carga é excessiva e precisa de ser reduzida. Pode ser necessário pedir ajuda, estabelecer limites ou mudar determinadas condições.
O mindfulness não serve para suportar indefinidamente aquilo que nos faz mal. Serve para reconhecer com maior clareza a resposta que está a formar-se e decidir o que fazer a seguir.
Na próxima vez que sentir o stress a surgir, experimente a RODA:
Respirar. Observar. Decidir. Avançar.
A carga pode continuar presente. Mas já não tem de ser o piloto automático a escolher a resposta.