A mente tem um repertório vastíssimo e, ao mesmo tempo, uma tendência impressionante para repetir três movimentos: agarrar o que quer, rejeitar o que não quer e desligar quando não sabe bem. Eu reconheço os três. Às vezes no mesmo quarto de hora.
Perante a experiência, a mente tende muitas vezes a seguir três direções. Procura agarrar o que deseja, rejeita o que incomoda ou desliga do que parece difícil, neutro ou pouco interessante. Este mapa não serve para criar novas etiquetas. Serve para reconhecer movimentos automáticos e é um dos meus mapas favoritos na prática de mindfulness e na vida.
Surge como procura de mais informação, validação, conforto, controlo ou certeza. Na meditação, pode aparecer como desejo de uma sessão calma, tentativa de conservar uma sensação agradável ou procura constante de uma técnica melhor.
Aparece como crítica, irritação, defesa ou vontade de corrigir. Na prática de meditação, transforma pensamentos, sons, dor ou inquietação em problemas que não deviam existir. No quotidiano, prepara respostas antes de ouvir e prolonga discussões que já terminaram.
Manifesta-se como adiamento, ausência, torpor ou adaptação automática. A pessoa está presente por fora, mas pouco em contacto com o que sente, quer ou percebe. Na meditação, pode parecer calma quando é apenas nevoeiro.
As três tendências têm intenções protetoras. Por exemplo: agarrar tenta garantir segurança, rejeitar tenta afastar ameaça, e desligar tenta reduzir sobrecarga. Perceber essa função evita transformar estes padrões em inimigos.
A prática começa com uma observação pequena: qual destas tendências está mais ativa agora? Depois, sentir como aparece no corpo e criar um intervalo. O objetivo não é eliminar o impulso. É recuperar a possibilidade de o seguir ou não.
Agarrar pode parecer ambição, preparação ou cuidado. Rejeitar pode apresentar-se como rigor, honestidade ou defesa de padrões elevados. Desligar pode parecer flexibilidade, descanso ou ausência de conflito. Nenhuma destas qualidades é, por si, um problema. O que investigamos é a contração e a perda de escolha que por vezes se escondem por baixo delas.
No corpo, os sinais podem ser mais simples do que a explicação: inclinação para a frente, aperto, impulso de afastar, peso, nevoeiro. Reconhecer o movimento corporal antes de construir uma teoria ajuda a trabalhar com a experiência concreta. Depois podemos perguntar do que a mente está a tentar aproximar-se, afastar-se ou proteger-se.
Estas palavras servem para investigar um momento, não para criar três novos tipos de pessoa. Hoje posso agarrar uma solução, rejeitar uma crítica e desligar perante uma decisão. O interesse está em reconhecer o movimento cedo o suficiente para recuperar escolha e não ser arrastada em piloto automático.
Ao longo de um dia, use três palavras como um mapa: agarrar, rejeitar, desligar. Quando notar uma delas, não a transforme num diagnóstico. Pergunte apenas: o que tenta proteger ou obter este movimento? E qual seria uma direção um pouco mais saudável agora?