O silêncio parece ter-se tornado um bem escasso e, como acontece com muitos bens escassos, começou a ser vendido como luxo. Retiros, cabines, auscultadores, hotéis sem crianças. Nada contra. Mas inquieta-me a ideia de precisarmos de comprar condições extraordinárias para ouvir o que acontece quando o ruído baixa.
Entramos num café com música ou televisão ligada e nem sempre reparamos. Quando o som termina, surge um pequeno alívio. Como se o corpo reconhecesse uma carga que a atenção consciente já tinha deixado de notar.
Vivemos rodeados de som e estimulação. Notificações, vídeos automáticos, conversas e conteúdos ocupam quase todos os intervalos. O vazio é tratado como um erro a corrigir.
O silêncio pode trazer tédio, inquietação e pensamentos que estavam encobertos. Talvez não evitemos apenas a ausência de som. Evitamos também o contacto com o que se torna audível por dentro.
Isto não transforma o silêncio numa obrigação moral. Há casas, trabalhos e cidades onde é difícil encontrá-lo. Há também pessoas para quem certos sons apoiam segurança e regulação. A questão não é eliminar o som. É recuperar alguma escolha sobre a quantidade de estímulo que carregamos.
Talvez o luxo não seja o silêncio absoluto. Talvez seja poder estar alguns minutos sem que alguém, alguma aplicação ou a própria urgência interna exija imediatamente a nossa atenção.
O estímulo contínuo não ocupa apenas a atenção. Também pode evitar o encontro com tédio, tristeza, cansaço ou perguntas sem resposta. Quando o som termina, não aparece necessariamente paz. Pode aparecer precisamente aquilo que o ruído mantinha fora do campo.
Isto não transforma o silêncio num tratamento nem numa prova de coragem. Há momentos em que música, conversa e entretenimento são escolhas saudáveis. O treino está em recuperar escolha: perceber quando acrescentamos som porque queremos e quando o fazemos porque alguns segundos sem preenchimento parecem intoleráveis.
Pode aparecer numa espera sem telemóvel, numa caminhada sem podcast ou enquanto se cozinha sem outro entretenimento ligado. Não é preciso transformar o momento num ritual. Às vezes é apenas deixar de preencher imediatamente o espaço.
Experimente cinco minutos sem conteúdo: sem podcast, música, notícias ou telemóvel. Não procure uma experiência solene. Repare no que o silêncio torna audível e na rapidez com que surge a vontade de o preencher.