Há uns anos passei 15 dias num retiro de meditação na Grécia. Logística tratada, dias organizados, nada para fazer, mar, silêncio. O cenário perfeito para desligar. Ou pelo menos era o que eu pensava.
Nos primeiros dias percebi algo desconcertante: o meu corpo estava ali, mas a minha cabeça continuava a correr. Ideias, micro-preocupações inúteis, cenários imaginários, todos a disputar atenção. E eram coisas completamente irrelevantes. IRRELEVANTES. Nada daquilo precisava de ser pensado. Mesmo assim, a mente disparava como se estivesse a tratar de assuntos que não podiam esperar.
Foi uma surpresa perceber que não era apenas a agenda, o trabalho ou as circunstâncias que me impediam de descansar. Havia também um hábito interno de estar sempre ligada. Mudara de país e de cenário, mas levara o sistema comigo.
A capacidade de desligar não depende só de finalmente termos tempo. Depende do estado do corpo e dos caminhos que a mente treinou durante anos. Podemos estar no lugar mais tranquilo do mundo e continuar acelerados por dentro, com um motor a trabalhar em fundo sem saber muito bem para onde vai.
O que me ajudou não foi ordenar-me que relaxasse nem repetir que estava tudo bem. Foi reconhecer com honestidade: há uma parte de mim que não sabe desligar sozinha. Não é falha moral nem falta de vontade. É um padrão treinado por repetição.
Por isso é tão importante treinar e estou a usar a palavra treinar de propósito pois é mesmo um treino intencional. Por exemplo treinar:
Vejo esta dificuldade em muitas pessoas que nem sequer lhe chamam ansiedade. Chamam-lhe funcionar. Continuam eficazes, mas em modo de alerta durante muito mais tempo do que o corpo consegue sustentar.
Se durante meses praticamos aceleração, disponibilidade constante e ocupação de todos os intervalos, o primeiro dia de descanso não apaga esse treino. A expectativa de desligar imediatamente pode até aumentar a frustração. Há agora uma praia, mas também uma nova tarefa: aproveitar bem a praia.
Talvez seja mais realista pensar no descanso como uma transição. O corpo vai recebendo sinais de segurança e a mente vai descobrindo que não precisa de preencher cada espaço. Nalguns dias esse processo é rápido. Noutros, não. A dificuldade não invalida o descanso. Mostra apenas o estado a partir do qual estamos a tentar descansar.
Às vezes não é preciso encontrar um lugar mais tranquilo. É preciso começar a reconhecer a prática invisível da mente há décadas, aquela inclinação que só se torna evidente quando finalmente paramos.
Quando chegar o próximo momento livre, não o preencha de imediato. Fique dois minutos sem tentar relaxar. Só estar aí, sem nada a fazer.
Observe a inércia do sistema, como um comboio que tirou o pé do acelerador mas ainda leva velocidade.
O que acontece se não exigir que pare já?
Explore estar aí por uns instantes. Com um 😊, com a leveza e humor de quem vê uma vídeo divertido a acontecer.
Isso já é treinar outros caminhos na mente.
PS: Se quiser explorar a ideia de um Retiro para treinar o desligar, veja aqui as próximas datas.