Meditação não é uma coisa só


Dizer «faço meditação» é um pouco como dizer «faço desporto». Ficamos a saber alguma coisa, mas não assim tanto. A pessoa pode correr, nadar, jogar futebol, ou levantar pesos. Tudo cabe na palavra desporto, mas não se treina a mesma coisa nem da mesma maneira.

Com a meditação acontece algo semelhante. Há muitas tradições, métodos e objetos de prática. Algumas práticas usam a respiração, outras o corpo, o som, uma frase, uma imagem ou uma pergunta. Umas procuram reunir e tranquilizar a mente. Outras ajudam a investigar a experiência. Outras cultivam deliberadamente qualidades como boa vontade, compaixão ou gratidão.

Por isso, quando alguém diz «experimentei meditar e não resultou», fico com vontade de perguntar: que prática experimentou, durante quanto tempo e o que esperava que acontecesse? Não é uma pergunta para complicar. É para não tratarmos uma família inteira de práticas como se fosse uma única técnica com um único resultado.

Mindfulness não é toda a meditação

A meditação mindfulness é um tipo específico de treino. Mas também é um estado da mente que resulta da prática: estamos mais presentes e menos arrastados pelos automatismos habituais.

Isto não significa estar atento a tudo, o tempo todo. Nem viver numa espécie de presente permanente, muito sereno e muito “zen”.

Os automatismos, o piloto automático, é necessário. Permite conduzir, escrever e fazer centenas de coisas sem reaprender cada gesto. O problema começa quando se torna o modo dominante e passamos o dia a reagir, quase sem reparar no que se passa dentro e fora de nós.

Na prática de mindfulness treinamos duas dimensões que se apoiam mutuamente: tranquilidade mental e insight.

Tranquilidade não é desligar

A tranquilidade mental é uma mente menos dispersa e menos em esforço contínuo. Às vezes só percebemos o ruído quando ele pára, como quando um ar condicionado se desliga e notamos de repente o quanto aquele som nos estava a cansar.

A prática pode criar este tipo de alívio. Não porque os problemas tenham desaparecido, mas porque, por alguns momentos, deixamos de agitar ainda mais aquilo que já está agitado. Reunimos a atenção. Repousamos no corpo, na respiração ou noutro apoio. Criamos condições para a mente abrandar.

E há um alívio neste silêncio que dura uns instantes.

Insight não é analisar mais

Insight é a capacidade de ver com maior clareza o que acontece na mente e no corpo. No fundo, na Vida.

Começamos a reconhecer mais cedo uma tensão, um impulso, uma história repetitiva ou a velocidade com que transformamos uma mensagem neutra numa catástrofe completa.

Não se trata de pensar sobre os pensamentos até os compreender todos. Isso seria apenas mais pensamento, muitas vezes com um excelente departamento de investigação e poucos resultados. Trata-se de reconhecer a experiência enquanto está a acontecer e perceber como a mente se relaciona com ela.

Durante anos achei que meditava mal

Durante muito tempo estive sobretudo focada na tranquilidade, na concentração, em parar os pensamentos e em “fazer bem”. Como a mente continuava a pensar, concluía com frequência que a meditação não me estava a correr como devia. Uma conclusão pouco simpática e, felizmente, errada.

Foi quando comecei a praticar mindfulness de forma mais consistente e a estudar o tema que algo mudou. Percebi que a prática não servia apenas para encontrar um refúgio de tranquilidade, embora isso seja importante. Servia também para aprender a estar melhor quando a tranquilidade não estava presente. Para regular, reconhecer padrões e criar espaço entre o estímulo e a resposta.

Esta distinção continua a ser central no meu trabalho. Uma meditação em que a mente esteve agitada pode ter treinado o regresso da atenção dezenas de vezes. Pode também ter mostrado, com bastante precisão, o estado em que a mente se encontrava. Não produziu o estado desejado, mas isso não significa que tenha falhado.

Para explorar

Da próxima vez que escolher uma prática, experimente perguntar antes de começar: o que estou a treinar aqui? Reunir a atenção? Acalmar o sistema? Conhecer um padrão? Estar com uma experiência difícil? Cultivar uma qualidade da mente?

A pergunta não precisa de transformar a meditação num projeto. Serve apenas para sair da ideia vaga de que meditar é uma coisa só e de que deve sempre deixar a mente calma. Tal como no desporto, compreender o treino ajuda a praticar com mais autonomia, menos comparação e expectativas um pouco mais realistas.

Que a sua exploração seja sumarenta! 😉