Porque tantas mulheres veem tarefas que os homens não veem?


A roupa por estender

Sentava-me no sofá para descansar. Passados uns minutos, lembrava-me de que não tinha estendido a roupa.

Não conseguia ficar tranquila com a roupa ainda na máquina a ocupar-me a cabeça. Durante muitos anos, levantava-me logo para a estender. Quando o fazia, sentia alívio, mas durava pouco, porque havia sempre outra tarefa à espera. 🙄

O que aprendemos a reparar

Um artigo de Tom McClelland e Paulina Sliwa deu nome a uma ideia que me era familiar. Os autores propõem que, perante a mesma cozinha desarrumada, uma mulher pode reparar na loiça para lavar, enquanto um homem pode reparar apenas na loiça que está no lava-loiça.

Os autores relacionam esta hipótese com a socialização de género. É o processo pelo qual aprendemos, desde a infância, através de exemplos, hábitos e expectativas, o que se espera das mulheres e dos homens. As experiências variam muito de família para família e, felizmente, hoje há famílias que procuram repartir as tarefas de forma mais igualitária. Ainda assim, em alguns contextos, as meninas podem ser mais chamadas a ajudar em casa ou a reparar no que falta fazer, enquanto os rapazes podem receber menos incentivo para essas tarefas. Com o tempo, estas experiências podem influenciar aquilo a que prestamos atenção e o que sentimos ser da nossa responsabilidade.

Isto não significa que todas as mulheres e todos os homens reajam da mesma maneira, nem que o cérebro das mulheres funcione de forma diferente por natureza. Os autores apresentam uma hipótese sobre o efeito da aprendizagem e das expectativas sociais, não uma prova de diferenças cerebrais.

A ideia reforçou algo que já reconhecia: aquilo que nos chama a atenção e aquilo que sentimos ser da nossa responsabilidade podem ser aprendidos, muitas vezes sem nos apercebermos.

Entre o lembrete e a ação

No meu caso, quando me lembrava de uma tarefa por terminar, entrava em piloto automático. Surgia o pensamento, vinha o desconforto de a deixar em aberto e eu levantava-me para a fazer. Nem sempre parava para perguntar se precisava mesmo de agir naquele momento. Parecia-me que só conseguiria descansar depois de fechar esse ciclo.

É fácil perceber como isto se liga à carga mental. Não são apenas as tarefas que fazemos. É também lembrá-las, antecipá-las, planeá-las e mantê-las em aberto na cabeça. Quando respondemos a cada lembrete, digital ou interno, com ação imediata, podemos deixar de distinguir entre aquilo que precisa mesmo de ser feito agora e aquilo a que nos habituámos a responder.

Um dos treinos mais úteis que a prática de mindfulness me trouxe para a vida foi aprender a reparar no pensamento sobre a tarefa, no desconforto e na vontade de me levantar, e a reconhecer o impulso e conseguir escolher não agir logo a seguir.

Pouco a pouco, percebi que podia descansar mesmo sabendo que havia coisas por fazer. Podia deixar uma tarefa para mais tarde sem esperar que tudo estivesse resolvido para me sentir tranquila. Para mim, esta mudança não significou deixar de cuidar da casa ou das pessoas à minha volta. Significou perceber que nunca estará tudo feito e que não preciso de esperar por esse momento para parar.

Fica a pergunta: consegue descansar mesmo sabendo que ainda há coisas por fazer, ou sente que tem de as resolver primeiro?