A mente ocupada não está necessariamente tranquila


Durante muitos anos, achei que os meus pensamentos eram importantes porque falavam de coisas importantes.

Trabalho, organização, responsabilidades, decisões, conversas. Se o assunto era relevante, pensar mais sobre ele parecia necessário.

Depois passei quinze dias num retiro de silêncio na Grécia. A alimentação estava tratada, as atividades definidas e havia um professor a orientar a prática. Quase não existiam decisões complexas.

Ainda assim, a mente continuava ocupada.

Planeava onde me sentaria ao almoço e o que faria nas horas seguintes. Revia o que tinha acontecido durante a prática. Pensava no que diria ao professor na reunião diária e ensaiava mentalmente a conversa.

Havia muito pouco para controlar. Mas a mente continuava a tentar fazê-lo.

O cenário mudou. O processo ficou

Foi aí que percebi que uma parte do que, no quotidiano, parecia responsabilidade era também um hábito da mente.

Não se tratava apenas de planear. Podia ser antecipar uma conversa, ruminar sobre uma situação, procurar a explicação certa, imaginar cenários ou voltar repetidamente a um assunto que naquele momento não podia resolver.

Enquanto analisava, preparava e antecipava, parecia que estava a fazer alguma coisa. A ocupação produzia uma sensação momentânea de controlo.

Isto não significa que pensar ou planear sejam um problema. Precisamos de pensar para tomar decisões, preparar conversas e resolver situações reais.

A dificuldade está em reconhecer quando o pensamento já cumpriu a sua função, mas continua.

O alívio de manter a mente ocupada

Por detrás desta tentativa de controlo existe muitas vezes uma procura legítima de paz, segurança ou tranquilidade.

A mente parece acreditar que poderá descansar quando compreender tudo, antecipar os riscos, encontrar as palavras certas ou garantir que nada correrá mal.

Enquanto pensa, pode até surgir algum alívio. A atenção fica ocupada e existe a sensação de estar a avançar. Durante algum tempo, contactamos menos com a ansiedade, a incerteza ou o desconforto de não saber.

Mas esse alívio não é necessariamente tranquilidade.

É o alívio de continuar a fazer alguma coisa.

A mente procura paz através do controlo, mas o próprio esforço para controlar mantém-na em movimento. Como não é possível garantir tudo, encontra sempre mais alguma coisa para rever, preparar ou antecipar.

Uma mente longe do que está a acontecer

Um estudo de psicólogos da Universidade de Harvard, ajuda a enquadrar esta tendência.

Os investigadores contactaram 2250 pessoas em momentos aleatórios do dia e perguntaram-lhes o que estavam a fazer, onde estava a sua atenção e como se sentiam.

Em 46,9% dos momentos registados, as pessoas estavam a pensar noutra coisa que não aquilo que estavam a fazer. A mente podia estar ocupada com acontecimentos passados, possibilidades futuras ou situações que talvez nunca viessem a acontecer.

Os participantes tendiam também a relatar menor felicidade quando a mente estava afastada da atividade presente. O destino da atenção revelou-se mais importante para o bem-estar momentâneo do que a própria atividade que estavam a realizar.

Este estudo não investigou especificamente a necessidade de controlo. Mostra, no entanto, que uma mente muito ocupada com o que não está a acontecer agora não é necessariamente uma mente mais tranquila ou satisfeita.

Estar a pensar não significa estar a resolver.

Quando pensar já não ajuda

Este processo pode assumir formas diferentes.

Pode ser continuar a planear quando a próxima ação já está definida. Ruminar sobre uma situação passada sem chegar a uma compreensão nova. Ensaiar repetidamente uma conversa. Rever uma decisão já tomada. Tentar prever todas as consequências antes de avançar.

O conteúdo muda, mas o movimento é semelhante. A mente tenta reduzir a incerteza pensando mais.

Por vezes, esse pensamento produz informação útil. Outras vezes, apenas repete um percurso conhecido.

O retiro na Grécia tornou isto particularmente visível. Mesmo sem as exigências habituais, a mente continuava a fabricar pequenos problemas para organizar e conversas para preparar.

O processo não dependia apenas das circunstâncias. Tinha-se tornado uma forma habitual de estar.

Na vida real

Em contexto profissional, pensar, planear e antecipar riscos são capacidades indispensáveis. Preparar uma conversa difícil também pode ser sensato.

A proposta não é deixar de pensar. É reparar no momento em que o pensamento deixa de orientar uma ação e passa apenas a manter uma sensação de controlo.

Talvez já saibamos o que precisamos de fazer. Talvez a conversa não possa ser preparada até ao último detalhe. Talvez não exista mais informação capaz de eliminar a incerteza.

Nesses momentos, pensar mais pode parecer produtivo sem nos aproximar de uma solução.

Reconheço este padrão ainda hoje. O objetivo não é alcançar uma mente permanentemente tranquila. É reconhecer mais cedo este movimento e não acreditar automaticamente que continuar a pensar trará a paz que procuro.

E isso traz-me escolha.

Uma experiência para explorar

Quando reparar que está a planear, a ruminar ou a ensaiar uma conversa, veja se desse pensamento ainda está a surgir alguma informação nova.

Se não estiver, experimente parar durante um minuto.

Não para se obrigar a sentir tranquilidade, mas para observar o que acontece quando deixa de alimentar o pensamento.

Pode surgir inquietação, incerteza ou vontade de voltar ao assunto. É possível que seja precisamente isso que manter a mente ocupada estava a evitar.

Reconhecer esta diferença ajuda a distinguir resolução de repetição, e tranquilidade de simples ocupação.

Acolha isso com um sorriso interno, como quem acabou de reconhecer um amigo de longa data.  Um amigo de longa data que quer ajudar. Diga-lhe "olá" e fique um pouco a fazer-lhe companhia, com o apoio de algumas respirações profundas.